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Blog de lucianohanna
 


"DIREITO PERPÉTUO"

Essa notícia saiu no jornal francês “Lê Monde”. A tática é sempre a mesma, embora os objetivos nem sempre sejam claros.

 

Hebron, uma cidade cobiçada pelos colonos israelenses
Michel Bôle-Richard
Enviado especial a Hebron (Cisjordânia)


Para os colonos, não há dúvida alguma: o lugar é estratégico. Situada no topo de um morro que domina um pequeno vale, a enorme construção permite controlar o acesso ao coração histórico de Hebron. Este prédio de quatro andares, de uma superfície total de 3.500 m2, é acima de tudo uma aquisição capital na conquista do território palestino pelos colonos, pois ele permite estabelecer um vínculo entre a colônia de Kyriat Arba e a Tumba dos Patriarcas, um importante local de culto desta cidade antiga, tanto para os judeus quanto para os muçulmanos.

Trata-se de uma nova peça de um quebra-cabeça que está sendo montado com o objetivo de expulsar a população palestina que está instalada entre os pontos de implantação já estabelecidos na cidade antiga (onde moram entre 600 e 700 pessoas) e as duas colônias de Kyriat Arba e de Givat HaAvo (8 mil habitantes), na periferia. Com isso, o grande arco de círculo seria completado, o que permitiria recuperar em parte a posse daquilo que David Wilder, o porta-voz da comunidade judaica, chama de "a primeira cidade judaica que existiu na história, em todo o mundo".

É por esta razão que, em 19 de março, um grupo de colonos ocupou este prédio, situado perto de uma mesquita e de um cemitério muçulmano, no meio de um bairro palestino. Desde então, para estes habitantes, a vida transformou-se num inferno. Cercados pelos colonos, eles não têm mais o direito de utilizar a estrada e se deslocam a pé ou por meio de carriolas, que as novas barragens nem sempre deixam passar. A polícia e o exército estão onipresentes. Um posto de vigilância foi instalado perto e também sobre o teto do prédio. Mais adiante, do outro lado do pequeno vale, foi montada uma torre de observação. Uma dezena de famílias se instalou no edifício, onde elas contam com a proteção máxima das forças de segurança. A imprensa está proibida de entrar no recinto.

Os colonos que ali se instalaram estão decididos a ficar e informaram isso aos seus vizinhos, que consideram como indesejáveis. Um relatório publicado pela organização israelense de defesa dos direitos humanos B'Tselem informa que o edifício foi conectado à rede elétrica e que foram iniciadas obras destinadas a permitir a instalação de novos colonos. O documento denuncia "os abusos e os atos de violência perpetrados pelos colonos e pelas forças de segurança, além das proibições crescentes que vêm entravando a liberdade de movimento dos palestinos". A B'Tselem enumera todos os ataques que ocorreram ao longo dos últimos sete meses: "Agressões físicas e verbais; insultos; maldições; arremessos de pedras, de urina, de ovos, de lixo, de garrafas vazias", tudo isso diante dos olhares indiferentes das forças de segurança que, elas também, são acusadas de cometer maus-tratos e humilhações.

"Os colonos não se cansam de nos atacar. O meu filho foi arrastado para fora da casa e surrado", lamenta-se Bassam Jaabari. "Eles me proibiram de trazer mercadorias para cá. Eles cospem sobre a nossa gente, arremessam latas de lixo contra nós. Eles não nos consideram como seres humanos. Eles tentam nos obrigar a partir a todo custo. O meu irmão está encarcerado desde 5 de agosto, junto com seis outras pessoas acusadas de terem arremessado pedras. Isto aqui se tornou um inferno". Bassam Jaabari é proprietário de uma pequena loja situada na parte de baixo do morro onde fica o edifício ocupado pelos colonos, o qual foi batizado de "a casa da paz". "É para mostrar que os árabes e os judeus podem viver em paz", diz, muito seriamente, David Wilder. Ele explica que as acusações da B'Tselem não passam de "uma fabricação". "Não existe prova alguma, não há nenhuma imagem sequer. Os judeus querem viver em Hebron, e quando aparece uma propriedade para comprar, é normal que eles o façam".

Falsas certidões de propriedade

Diferentemente do que afirma David Wilder, as provas de que atos de violência foram cometidos são numerosas. A B'Tselem forneceu aos palestinos pequenas câmeras que lhes permitiram filmar diversas agressões. Já em relação à suposta compra do prédio, os palestinos recusam-se a vendê-lo, nem mesmo sob a pressão. Fayez Al-Rajabi, o proprietário, conta que nunca vendeu este edifício, do qual ele havia comprado o terreno, 13 anos atrás, de um jordaniano. Neste terreno, ele havia empreendido edificar uma construção cujas obras sofreram atrasos por causa da Intifada.

Para este garagista, os documentos de propriedade dos colonos foram "forjados". "Minha casa me foi roubada", acusa. Ele chegou a passar seis meses na prisão, porque a Autoridade palestina suspeitou que ele teria vendido a casa para colonos. O que foi considerado como um ato de colaboração. No domingo, 18 de novembro, o inquérito governamental solicitado pela Alta Corte concluiu que efetivamente, ele não havia vendido o seu bem e que, em conseqüência, os ocupantes dele deveriam ser desalojados o quanto antes.

Ao que tudo indica, os colonos compraram efetivamente deste mesmo jordaniano, um certo Ayoub Jaber, uma propriedade que ele já havia vendido para o garagista. O procurador da Alta Corte havia considerado que existem "sérias dúvidas em relação à autenticidade dos documentos apresentados pelos colonos". Alguns meses atrás, o ministério da defesa havia ordenado a expulsão dos colonos. Mas estes haviam entrado com um recurso.

Para os colonos, o mais importante é ganhar tempo. Eles se instalam e criam no terreno uma situação de fato. "Nós estamos em nossa casa e nós temos a intenção de comprar tudo o que for possível comprar, isso porque Hebron", martela David Wilder, "é um lugar de importância histórica para o judaísmo".

Tradução: Jean-Yves de Neufville



Escrito por lucianohanna às 19h42
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