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Blog de lucianohanna
 


TOLERÂNCIA E LIBERDADE DE IMPRENSA

É de conhecimento de todos a comoção ocorrida em alguns países muçulmanos em decorrência da publicação, em um jornal dinamarquês, de charges sobre Maomé. Uma das charges mostrava Maomé usando um turbante em formato de bomba; outra, reproduzia a figura do profeta dizendo que o paraíso estava ficando sem virgens para os homens-bomba. A intensidade dos protestos parece ter atingido o ápice no Irã, onde a população invadiu a embaixada da Dinamarca.

Jornais da França, Espanha, Itália e Alemanha, no afã de demonstrar a força de uma imprensa livre e os valores de uma sociedade fundada na "razão", logo republicaram as charges.

A inepta e maliciosa mídia brasileira tratou de recriminar sumariamente os protestos, indignada com o que foi, por ela, chamado de fundamentalismo louco, radical e reflexo de uma sociedade que desconhece o conceito de liberdade e, sobretudo, o de liberdade de imprensa.

Algum tempo depois, com os ânimos mais calmos, foi feito um documentário por um jornalista inglês. Este jornalista percorreu diversos países muçulmanos, com o intuito de esclarecer os fatos ocorridos após a publicação das charges. Procurou entrevistar vários participantes das manifestações. Um dos pontos culminante é a entrevista com um senhor iraniano, já idoso e apontado como um dos líderes da invasão à embaixada da Dinamarca. Num determinado momento da conversa, foi abordada a guerra Irã-Iraque e o senhor iraniano lembrou, emocionado, a morte de seus dois filhos. Um deles, não me recordo se o mais velho ou o mais novo, foi morto após uma bomba explodir em seu colo. Com a barriga e as pernas estraçalhadas, seus amigos não puderam fazer muito por ele. Alguém, ainda, tirou um foto, em que se vê um corpo banhado em sangue. Tudo isso foi presenciado pelo pai do moço.

O outro ponto culminante do documentário, em minha opinião, foi o "teste" aplicado aos jornais europeus para verificar o seu próprio grau de liberdade e tolerância. A equipe, responsável pelo documentário, procurou diversos veículos de comunicação e lhes propôs a publicação de charges ridicularizando o chamado "holocausto" cometido pelos nazistas contra os adeptos da religião judaica na Segunda Guerra Mundial. Como era de se esperar, nenhum jornal aceitou publicar tais charges. Um pequeno jornal da Dinamarca foi o único que decidiu publicá-las. Resultado: o jornalista responsável pela decisão foi demitido e, pouco tempo depois, o jornal, pressionado, encerrou suas atividades!!! Mas, pasmem, tudo isso sem que ao menos uma charge fosse publicada. A só ameaça de publicação acarretou todos esses dissabores ao extinto jornal dinamarquês.

O mundo ocidental bradava por tolerância e liberdade quando o problema era o "outro", uma outra civilização, atrasada materialmente (mas não espiritualmente) e, sob muitos aspectos, incompreendida pelos ocidentais. Tolerar algo distante de nós, que não atinge diretamente o espírito de um povo, não é tolerar. Ao se deparar, porém, com problemas internos , com aspectos mal resolvidos da sociedade européia, ela não conseguiu se colocar acima das próprias críticas. Mas, numa ausência total de autocrítica, foi incapaz de perceber suas próprias deficiências.



Escrito por lucianohanna às 23h09
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SADAM HUSSEIN E OS CURDOS

Em texto aqui postado no dia 26/10/2007, intitulado  “A divisão do Iraque”, escrevi que os curdos iraquianos sempre foram respeitados pelos sunitas, etnia a qual pertencia Sadam Hussein.

 

Essa é, também, a visão do sociólogo e arabista Lejeune Matro Grosso. Em um de seus artigos, publicado no site www.vermelho.org.br, escreveu o citado arabista:

 

De todos os estados nacionais onde os curdos vivem, nenhum outro os tratou tão com dignidade como no Iraque, especialmente no governo de Saddam Hussein. Ainda que a imagem da mídia, sempre distorcida, mostrava dureza nesse tratamento, apenas no Iraque, na região do Kirkut, os curdos viviam uma espécie de autonomia relativa. Suas bandeiras eram hasteadas nas repartições públicas iraquianas, as escolas públicas na região eram bilíngües e os professores também ensinavam em língua curda. Tinham inclusive um parlamento regional com autonomia. Algo parecido com o que ocorre nas duas Irlandas e mesmo no País Basco”.

 

A mídia brasileira, mistura de inépcia estrutural com oportunismos conjunturais, sempre omitiu esses fatos, limitando-se a noticiar o inverídico genocídio praticado pelo governo de Sadam Hussein.



Escrito por lucianohanna às 01h02
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UM PILAR DA ÉTICA

Peter O’Toole ficou mundialmente famoso ao interpretar o tenente T.E.Lawrence, no filme Lawrence da Arábia. O filme teve como base o livro Os sete pilares da sabedoria, escrito por Lawrence após sua participação na Primeira Guerra Mundial, ao lado dos árabes.

À época de seu lançamento (1962), os cinemas americanos tinham dificuldade em projetar mais de duas sessões por dia, em razão da longa duração do filme. Esta dificuldade gerava conseqüências na bilheteria, pois um número menor de sessões representava um número menor de consumidores. O lucro da indústria, desse modo, ficava comprometido. Resultado: mais de uma hora e meia do filme foi cortado. Mesmo com esta mutilação, foi ele um sucesso estrondoso, ganhador de vários prêmios.

Várias décadas após seu lançamento, o filme foi relançado sem cortes, no que hoje se convencionou chamar de "a versão do diretor". Aconselho a todos, se desejarem, assistir a versão integral deste grande filme (grande em todos os sentidos) e não perderem tempo com as suas inúmeras versões mutiladas.

Aliás, o filme tornou mundialmente conhecido não somente Peter O’Toole, como também o ator Omar Sharif, qualificado, comumente, como um ator de origem egípcia, mas, na realidade, nascido no Líbano. Era cristão e se converteu ao islamismo para se casar. Como conseqüência desta conversão, foi obrigado a mudar seu nome para Omar Sharif (chamava-se Michel Demitri Shalhoub).

Peter O’Toole (Lawrence) e Omar Sharif (sharif Ali), no entanto, por muito pouco não perderam a chance de participar deste épico do cinema. Isto porque, os produtores haviam escolhido outros atores para interpretar os personagens de Lawrence e do sharif Ali. Para o papel de Lawrence, foi chamado, inicialmente, Marlon Brando, que não aceitou o convite. Tentaram, então, contratar Albert Finney, mas o ator já estava escalado para trabalhar em outro filme. Somente após ambas as recusas, o nome de Peter O’Toole foi cogitado. O diretor David Lean ficou impressionado com sua performance no filme "The day they robbed the bank os england", de 1960. Dizem que o produtor do filme, Sam Spiegel, ao assistir a este filme teria dito: "Ele não é bom. Eu sei"... Apesar da "respeitável" e muito pouco profética opinião de Sam Spiegel, Peter 0’Toole foi o escolhido, para deleite daqueles que adoram cinema.

Para interpretar o papel do sharif Ali, por sua vez, foram chamados o francês Alain Delon e um ator alemão, um pouco menos conhecido. O diretor David Lean ficou insatisfeito com ambos e resolveu apostar na contratação de um ator árabe. Omar Sharif, já conhecido no Egito, fez os testes exigidos e, pouco depois, foi chamado e contratado para o papel.

Há uma Bela passagem envolvendo os dois atores. Durante os mais de duzentos dias de filmagens, com locação no deserto da Jordânia, Peter e Omar sonhavam todos os dias com a fama e com o lançamento do filme nos EUA. Não se sabe bem o porquê, chegado o tão esperado momento, foi vetada a participação de Omar Sharif nas pré-estréias do filme nos EUA. Ao tomar conhecimento deste fato, Peter O’Toole imediatamente informou aos produtores sua decisão de somente participar do lançamento do filme nos EUA se seu colega, Omar Sharif, também estivesse presente. Como a presença de Peter O’Toole era indispensável para a publicidade do filme, o estúdio e os produtores não tiveram outra alternativa se não a de permitir a participação de Omar Sharif. Por ironia, no ano seguinte, Omar Sharif viria a ganhar, nos EUA, o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante pela sua interpretação do sharif Ali (Peter O’Toole concorreu ao Globo de Ouro e ao Oscar de melhor ator principal e perdeu em ambas).

Surgiu entre eles uma grande amizade e rendeu a nós, cinéfilos, a oportunidade de vê-los em grandes atuações (fala-se até pouco da atuação de Omar Sharif no papel de Ali, talvez pelo fato de o Lawrence de Peter O’Toole ser uma das maiores interpretações da história do cinema). Voltaram, os dois, a contracenar em muitos outros filmes, dentre eles, A noite dos generais, também imperdível.



Escrito por lucianohanna às 19h37
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CPMF

Criar ou aumentar tributos quase nunca foi uma política simpática aos olhos dos contribuintes. Some-se a isto a histórica ineficiência do Estado brasileiro em cumprir suas funções, e teremos um alto grau de intolerância a qualquer novidade arrecadatória (leia-se: criação ou majoração tributária).

Natural seria, diante disso, a população, primeiramente, concentrar sua revolta contra os tributos mais onerosos, dentre eles, por exemplo, a COFINS. Não é isso, porém, o que tem acontecido. A "vilã" da vez é a CPMF, cuja alíquota, porém, é bem inferior à da COFINS e à de outros tributos. Qual, então, a razão desse fato? A quem interessa a extinção da CPMF?

A intolerância da população brasileira em face da CPMF tem várias causas, mas uma em especial: a maciça campanha da mídia contra esta contribuição. É claro que os meios de (des)informação colocar-se-ão, diante dessa e de outras acusações, como um reflexo da sociedade, isto é, a imprensa se vê sempre como um efeito e nunca como a causa de algum fenômeno ou fato.

Em todos os jornais, impressos e falados, o inconformismo da mídia é patente. Jogam com a emoção dos indivíduos e manipulam as informações, dadas sempre de forma truncada. A sensação que fica é a de que existe algo por trás do emaranhado de informações, omitido propositalmente para nos manter na ante-sala da realidade.

A imprensa, porém, nada mais faz do que jogar o jogo do grande capital, grupo ao qual ela própria pertence. E os interesses desses grupos são antagônicos, se não em relação à principal finalidade da CPMF – destinação de recursos à saúde -, com certeza a um de seus efeitos indiretos mais controvertidos: o cruzamento de dados entre os valores pagos por cada contribuinte a título de CPMF com os valores arrecadados a título de IR (imposto de renda).

O governo verificou que, dos cem maiores contribuintes da CPFM, mais da metade nunca havia pago imposto de renda! Empresários caracterizados como microempresas, para efeito de imposto de renda, estavam entre os maiores contribuintes da CPMF, isto é, movimentavam milhões de reais por mês, mas eram isentos do imposto de renda por serem "microempresas".

Esses dados esclarecem o porquê de a CPMF ser tão impopular ao grande capital, mais impopular até do que tributos mais onerosos a ele, como é o caso da COFINS, do IPI, do ICMS, isso para falar de apenas três espécies tributárias.

 



Escrito por lucianohanna às 14h20
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